Afecções de Cascos em Bovinos: Causas, Diagnóstico,Consequências, Controle e Tratamento

Proteja seu rebanho: entenda e combata as pododermatites para uma pecuária mais produtiva

As afecções dos cascos, também conhecidas como pododermatites, representam um dos maiores desafios sanitários e econômicos da pecuária bovina, especialmente em sistemas de produção intensiva, como a pecuária leiteira e o confinamento.

Responsáveis por aproximadamente 60% das causas de claudicação — popularmente chamada de manqueira — em bovinos, essas enfermidades provocam dor, desconforto e perdas significativas na produtividade e na lucratividade das propriedades.

Compreender as causas, realizar o diagnóstico precoce e implementar estratégias eficazes de prevenção, controle e tratamento é fundamental para preservar a saúde, o bem-estar e o desempenho do rebanho.

Causas das afecções de cascos em bovinos

As doenças de casco possuem origem multifatorial. Isso significa que podem ser provocadas pela combinação de fatores ambientais, nutricionais, genéticos e relacionados ao manejo dos animais.

Fatores ambientais e de manejo

Acúmulo de matéria orgânica e umidade excessiva

Ambientes úmidos e sujos, com acúmulo de fezes e urina, favorecem o amolecimento dos cascos. Com isso, eles se tornam mais frágeis e suscetíveis a traumas e infecções bacterianas.

Terrenos abrasivos ou irregulares

Pisos duros, escorregadios, pedregosos ou com irregularidades podem provocar lesões diretas nos cascos e dificultar a locomoção dos animais.

Alta taxa de lotação

A concentração excessiva de animais aumenta o estresse, a competição por espaço e a exposição a ambientes contaminados.

Falta de higiene

Instalações inadequadas, ausência de limpeza frequente e falta de pedilúvios contribuem para a proliferação de agentes infecciosos.

Fatores nutricionais

Dietas desbalanceadas

Dietas com excesso de carboidratos rapidamente fermentáveis e baixa quantidade de fibras podem causar acidose metabólica. Essa alteração pode desencadear a laminite, caracterizada pela inflamação das lâminas do casco.

Deficiências minerais

A falta de minerais essenciais pode comprometer a formação, a resistência e a qualidade dos cascos.

Fatores genéticos

A predisposição genética, assim como a conformação dos membros e dos cascos, pode influenciar a ocorrência de afecções podais.

Animais com aprumos inadequados ou histórico recorrente de problemas nos cascos podem apresentar maior risco de desenvolver lesões.

Principais tipos de pododermatites

As afecções podais mais comuns em bovinos incluem:

Laminite

É a inflamação das lâminas do casco, frequentemente associada a distúrbios nutricionais e metabólicos.

Doença da linha branca

Ocorre quando há separação ou enfraquecimento da linha branca do casco, permitindo a entrada de sujeira, pedras e bactérias.

Podridão de casco

Também conhecida como Foot Rot ou necrobacilose interdigital, é uma infecção bacteriana causada principalmente por agentes como Fusobacterium necrophorum e Dichelobacter nodosus.

A enfermidade pode causar inflamação, necrose dos tecidos, manqueira e odor desagradável.

Úlcera de sola

É uma lesão localizada na sola do casco, geralmente dolorosa, que pode comprometer significativamente a locomoção do animal.

Dermatite digital

É uma lesão infecciosa que acomete a pele próxima ou entre os dígitos. Possui caráter contagioso e pode se espalhar rapidamente pelo rebanho quando não controlada.

Erosão de talão

Caracteriza-se pelo desgaste irregular do estrato córneo do talão, aumentando a predisposição para outras lesões e infecções.

Como identificar problemas nos cascos

O diagnóstico das afecções de casco é predominantemente clínico, realizado por meio da observação do comportamento do animal e da avaliação visual dos membros e dos dígitos.

Os sinais podem variar de uma leve dificuldade para caminhar até uma incapacidade severa de locomoção.

Entre os principais sinais de alerta estão:

  • Manqueira ou alteração na forma de caminhar;
  • Dificuldade para se levantar ou se locomover;
  • Permanência excessiva na posição deitada;
  • Relutância em apoiar um dos membros;
  • Inchaço na região dos cascos;
  • Feridas, rachaduras ou alterações na sola;
  • Presença de secreção ou odor desagradável;
  • Redução do consumo de alimento e água;
  • Queda na produção de leite ou no ganho de peso.

Consequências das doenças de casco

As doenças de casco afetam diretamente a saúde, o bem-estar e a produtividade do rebanho.

Dor e desconforto

Animais afetados tendem a permanecer mais tempo deitados, apresentam dificuldade de locomoção e podem desenvolver quadros de estresse.

Perda de peso e redução do consumo

A dor dificulta o deslocamento até os locais de alimentação e hidratação. Consequentemente, o animal pode reduzir o consumo de matéria seca e água, perder peso e ficar mais vulnerável a outras doenças.

Queda na produção de leite e carne

A diminuição do consumo, somada à dor e ao estresse, afeta diretamente a produção de leite e o desempenho dos bovinos de corte.

Comprometimento reprodutivo

Vacas com problemas de casco podem apresentar aumento do número de dias abertos, maior intervalo entre partos e maior probabilidade de desenvolver alterações reprodutivas.

Maior incidência de outras doenças

A dor e o estresse podem comprometer a imunidade dos animais, aumentando o risco de problemas como mastites, metrites e distúrbios metabólicos.

Aumento da taxa de descarte

Casos graves ou recorrentes podem levar ao descarte precoce de animais produtivos e de alto valor genético.

Como prevenir as afecções de cascos

A prevenção é a estratégia mais eficiente para reduzir a incidência de pododermatites. Um programa preventivo deve combinar diferentes medidas de manejo.

Casqueamento preventivo e corretivo

O casqueamento deve ser realizado periodicamente, de acordo com as condições e necessidades de cada rebanho.

De forma geral, recomenda-se que a avaliação seja feita pelo menos duas vezes ao ano. O procedimento ajuda a:

  • Manter o equilíbrio dos cascos;
  • Remover o excesso de tecido;
  • Corrigir deformidades;
  • Identificar lesões em estágio inicial;
  • Melhorar a distribuição do peso entre os membros.

Higiene e manejo do ambiente

As instalações devem ser mantidas limpas, secas e confortáveis. Pisos adequados ajudam a evitar traumas, escorregões e acúmulo excessivo de umidade.

Também é importante reduzir a permanência dos animais em áreas com barro, fezes, urina ou matéria orgânica acumulada.

Utilização de pedilúvios

Os pedilúvios podem auxiliar na desinfecção dos cascos e na redução da contaminação por agentes infecciosos, especialmente em períodos de chuva ou alta umidade.

Podem ser utilizadas soluções antissépticas específicas, sempre respeitando as orientações técnicas, as concentrações indicadas e os cuidados de segurança.

Nutrição balanceada

Uma alimentação equilibrada, com níveis adequados de fibras, energia, vitaminas e minerais, contribui para a saúde e a resistência dos cascos.

O equilíbrio da dieta também ajuda a prevenir distúrbios metabólicos relacionados à laminite.

Seleção genética

A conformação dos membros e dos cascos deve ser considerada nos programas de seleção do rebanho.

Animais com predisposição recorrente a problemas podais devem ser avaliados com atenção antes de permanecerem nos programas reprodutivos.

Tratamento das afecções de cascos

Quando as lesões já estão instaladas, o tratamento deve combinar diferentes medidas, como:

  • Avaliação clínica do animal;
  • Limpeza e higienização da região;
  • Casqueamento corretivo;
  • Correção das condições ambientais;
  • Controle da dor e da inflamação;
  • Uso de medicamentos quando necessário;
  • Acompanhamento da evolução da lesão.

A escolha do tratamento depende do tipo de afecção, da gravidade do caso, da presença de infecção e das condições gerais do animal.

Produtos utilizados no tratamento e manejo

Alguns produtos veterinários podem ser utilizados no manejo das afecções podais, conforme a avaliação e a prescrição do médico-veterinário.

Solucef — Bimeda

Antibiótico injetável à base de ceftiofur 5%, utilizado no tratamento de infecções bacterianas, incluindo casos de podridão dos cascos.

O produto é pronto para uso e pode ser uma alternativa para o manejo de bovinos leiteiros, de acordo com as indicações de bula e a orientação profissional.

Fomoped — Zoetis

Antisséptico desenvolvido para o tratamento e a proteção dos cascos.

Pode auxiliar no controle de agentes como Dichelobacter nodosus, Fusobacterium necrophorum e Trueperella pyogenes, frequentemente associados às infecções podais.

Tulaxx — Ourofino

Pode ser utilizado como aliado no manejo de afecções podais em bovinos confinados.

Estudos com o produto apontam redução no escore de claudicação e recuperação do desempenho produtivo dos animais tratados.

Micotil 300 — Elanco

Produto indicado para o tratamento de determinadas infecções bacterianas, incluindo casos de necrose aguda dos cascos, também conhecida como Foot Rot, associada ao Fusobacterium necrophorum.

Lactofur e Maxicam 2% — Ourofino

A associação entre um antibiótico e um anti-inflamatório pode ser utilizada em protocolos destinados ao controle da infecção, da dor e do processo inflamatório.

O Lactofur atua no combate aos agentes bacterianos, enquanto o Maxicam 2% auxilia na redução da inflamação e do desconforto.

Couro Limpo Prata — Noxon

Produto de uso tópico que auxilia na cicatrização e na proteção de feridas.

Também pode ajudar a proteger os cascos e os pelos contra agentes externos e o ressecamento, proporcionando mais conforto aos animais.

Atenção ao uso de medicamentos veterinários

A aplicação de antibióticos, anti-inflamatórios, antissépticos e outros medicamentos deve ser feita somente com orientação de um médico-veterinário.

É fundamental respeitar:

  • A indicação de cada produto;
  • A dosagem recomendada;
  • A via de administração;
  • A duração do tratamento;
  • As contraindicações;
  • Os períodos de carência para leite e carne;
  • As recomendações presentes na bula.

O uso inadequado de medicamentos pode comprometer a recuperação do animal, causar resíduos nos alimentos e contribuir para a resistência bacteriana.

A importância do médico-veterinário

O acompanhamento de um médico-veterinário é indispensável para avaliar a gravidade de cada caso, identificar corretamente o tipo de lesão e recomendar o protocolo mais adequado para a realidade da propriedade.

O profissional também poderá avaliar fatores relacionados à nutrição, ao ambiente, ao manejo e à sanidade do rebanho, evitando que os problemas se tornem recorrentes.

Conclusão

As pododermatites não devem ser tratadas apenas como um problema localizado nos cascos. Elas afetam a locomoção, o consumo de alimentos, a reprodução, o desempenho produtivo e o bem-estar dos bovinos.

Por isso, a melhor estratégia é adotar uma abordagem integrada, combinando:

  • Higiene das instalações;
  • Nutrição balanceada;
  • Casqueamento periódico;
  • Uso correto de pedilúvios;
  • Identificação precoce dos animais afetados;
  • Tratamento adequado;
  • Acompanhamento veterinário.

Com prevenção, manejo correto e diagnóstico precoce, é possível reduzir perdas, proporcionar mais conforto aos animais e tornar a produção pecuária mais saudável, eficiente e rentável.

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